Quando Foi Preciso Mudar a Letra da Canção – I

Belchior

“Me atirei no mundo vi tudo mudar, das verdades que eu sabia só sobraram restos…”  Assim começava Meu Mundo e Nada Mais canção composta por Guilherme Arantes no final de 1968 (com apenas 15 anos de idade) em referência à sua entrada na adolescência. Veja no arquivo de áudio abaixo a partir dos 46’45”:

Áudio – Guilherme Arantes

Guilherme Arantes

Guilherme Arantes parece que já foi convencido a mudar sua letra.

Em tempo, a música My Song de Elton John, citada aos 49:45, era, na verdade a sublime Your Song. Quase uma década depois, em 1976, ao ter Meu Mundo e Nada Mais escolhida para trilha da novela “Anjo Mau” (primeira versão) da Rede Globo, Guilherme recebeu a missão de “adaptar” a letra da música ao enredo do folhetim televisivo. A personagem Paula (vivida por Vera Gimenez – avó do sétimo filho de Mick Jagger) iria trair Rodrigo (José Wilker) com seu irmão e a música teria que se encaixar nessa trama do cônjuge enganado. Então o verso “me atirei no mundo” foi trocado por “quando eu fui ferido”. Por sorte, o autor não mudou para “quando eu fui traído”, senão teríamos o lançamento precoce do sertanejo universitário.

ARQUIVO 24/09/73 - RAUL SEIXAS - FOTO: ARQUIVO AG. ESTADO

Raul Seixas pensa na mudança.

Em 1973, ao lançar o magnífico “Krig-há, bandolo”, Raul Seixas tinha sua Ouro de Tolo tocada em quase todas as emissoras de rádio do Brasil. Isso porque o Sistema Globo de Rádio se recusava a tocar uma música que fazia propaganda (de graça) para o Corcel (carro da Ford lançado como cupê em 1969) citado na música. Alertado pelo cantor goiano Odair José, que conhece como funcionam as “coisas” do rádio, Raul gravou um compacto (raríssimo) onde substitui “corcel 73” por “carrão 73” e pode então ser tocado nas rádios da Vênus Platinada. Um detalhe interessante é que Odair é um anagrama de rádio. Assista no vídeo abaixo a partir de 3’39”:

Os carros continuaram acelerando nas letras das músicas brasileiras. Outra história interessante vem de Paralelas, do maior nome da música popular brasileira (segundo ele próprio): Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Acontece que no verso inicial dessa canção ouvia-se: “No Karmann Ghia, sobre o trevo a cem por hora, ó meu amor…” Com medo que a música se tornasse “datada”, o sobralense tirou o nome do carro – um projeto italiano (Carrozzeria Ghia SpA) com construção alemã (Karmann) –  e colocou “dentro do carro”, mas não seria por isso que Paralelas se tornaria imortal e atemporal. No vídeo abaixo há um comentário da cantora Lúcia Menezes, a partir de 3’10’, sobre a preocupação de Belchior:

No País Tropical de Jorge Ben, música que me fez trocar o Santos, meu primeiro time do coração, e de futebol de botão, pelo Flamengo, a citação do Fusca ficou inalterada, assim como seu casamento com Domingas Terezinha “Eu tenho um fusca e um violão, sou Flamengo, tenho uma nêga chamada Tereza..”. Jorge manteve o Fusca e o casamento, só mudou o nome…

Jorge Ben

Jorge Ben com seu Fusca e o violão.

MÚSICAS

Guilherme Arantes – Meu Mundo e Nada Mais (quando eu fui ferido)


Raul Seixas – Ouro de Tolo (carrão 73)


Belchior – Paralelas (dentro do carro)


Jorge Ben (eu tenho um Fusca)


 

4 comentários sobre “Quando Foi Preciso Mudar a Letra da Canção – I

  1. Eu curto as datas e os detalhes que indicam o tempo nas músicas, me levam para o momento em que ela foi feita, parece que o artista consegue expressar o sentimento sem ter que explicar nada. Adorei o post!! Abraços.

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