Begher BR6: A saga de uma guitarra

José Maurício

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Eu escolhi fazer engenharia elétrica porque era o que mais se aproximava de guitarra elétrica. Pensei em fazer letras, mas eu gostava era de música…

A primeira vez que me encontrei ao vivo com uma guitarra foi em 1976 no grupo de jovens da Igreja Bom Jesus. Ela havia sido adquirida pelo João por intemédio do Geraldo junto à banda Marcantes (do qual Geraldo era vocalista). Embora eu não fosse o titular para tocar na missa dominical (ainda estava nas primeiras aulas de violão), durante os ensaios eu sempre dava um jeitinho de dedilhar suas cordas para ouvir o som metálico vindo do amplificador valvulado Giannini (provavelmente um Valiant 1968). Ainda me lembro do primeiro solo: a introdução de Me and You de Dave McLean (veja abaixo) , usando apenas três cordas de um acorde de mi maior (não existe nada mais fácil).

(http://www.youtube.com/watch?v=l4sYDT-DeBQ)

Essa guitarra era sólida, tinha um formato diferente e teclas de interruptor no lugar das chaves de mudança de captadores. Não era modelo Stratocaster, nem Les Paul (os modelos mais conhecidos).

Com o fim do grupo de jovens em 1979, pedi ao padre Jacó o que sobrou da guitarra (um braço e o corpo com algumas ferragens e potenciômetros). Desde então sonho em poder restaurar aquela relíquia. Lembro que o Márley e eu (nada a ver com o filme, meu amigo Márley havia lixado seu violão de tampo verde, tornando-o natural) lixamos todo o corpo da guitarra, tirando o verniz e a tinta preta das bordas sabe-se Deus pra quê. Quando tínhamos (Fernando e eu) nas mãos alguma enciclopédia de guitarras, procurávamos algo parecido com aquele modelo, mas nada.

Braço da BR6 original saíndo da pintura

Braço da BR6 original saíndo da pintura

Mesmo com o advento da internet a procura não obtinha sucesso até que em julho de 2008 Fernando localizou uma foto e um e-mail que me levaria a ela. Após a troca de alguns e-mails não animei a restaurá-la. Mas, em janeiro de 2.011 na Rua Teodoro Sampaio em São Paulo encontrei dentre tantas lojas de instrumentos musicais (principalmente guitarras) uma vitrine com modelos muito parecidos com a minha primeira. Tive que esperar algum tempo até a abertura da loja e conversando com o proprietário contei da minha guitarra. Ele a identificou e disse que seu pai era o criador e me deu o nome dela: uma Begher BR6 (1966). Quando falou que seu pai iria gostar de conversar comigo eu perguntei: Ele está vivo? Onde posso encontrá-lo? Estava perto, na Rua Capote Valente. Abandonei minha visita à rua das guitarras e corri para seu atelier.

Romeu Begher e a BR6 original

Romeu Begher e a BR6 original

Fomos, Pedro e eu, extremamente bem recebidos. Romeu Begher, uma pessoa simples como todo aquele que detém a arte e conhecimento. Irmão do saudoso Nenê (Lívio Benvenuti Júnior, baixista dos Incríveis) ele nos mostrou fotos e contou de sua primeira guitarra por ele fabricada em 1957 a partir de um braço retirado de um violão. Apresentou-nos, com orgulho, uma guitarra branca, com as ferragens banhadas a ouro. Quando Pedro a “testou” em um amplificador valvulado, surpreendido pelo som puro do captador, perguntou qual a marca do mesmo. A resposta foi ainda mais surpreendente: “a gente mesmo que faz”. Em um motor de máquina de costura por ele adaptado é feito o enrolamento do captador. Além de exímio artesão, o Sr. Romeu também conserta equipamentos eletrônicos, inclusive valvulados.

Begher ouro

Begher ouro

Em outubro de 2011 a guitarra (ou o que sobrou dela) foi levada a São Paulo e, depois de analisá-la, o Sr. Romeu sugeriu fazer uma réplica “com várias modificações técnicas como tensor no braço, três captadores com mais brilho e o cavalete regulável, tudo isso sem mexer no visual dela”.  Foi assim que encomendei minha BR6 modelo 2011/2012, única e exclusiva. Sempre que ligava para perguntar sobre a BR6, eu dizia que não tinha pressa, que ele trabalhasse nela quando tivesse vontade. Nesse período recebi fotos desde a madeira escolhida até a conclusão da guitarra. A programação era buscá-la em junho de 2012 e como o aniversário do Pedro estava próximo, tive a idéia de mandar colocar seu nome na mão como surpresa. Além de única e exclusiva, ela agora estava personalizada.

Dia nove de junho de 2012, sábado, após uma visita à feira da Benedito Calixto e um bom almoço no Balaio (um ótimo restaurante por quilo na Teodoro Sampaio), Paulo e eu fomos ao encontro da BR6 2012.

No domingo fomos bem cedo para o aeroporto (fizemos o check in às 08h00min para o vôo das 11h01min). Estava preocupado em como embarcar minha BR6, não queria despachá-la, pois provavelmente ela chegaria como a original, apenas o braço e o corpo como no caso do violão do músico canadense Dave Carroll .

(https://www.youtube.com/watch?v=t53LYUamBZI)

Não a despachei com as malas, mas havia o problema de ser barrado com minha pesada bagagem de mão (além dos quarenta e dois discos de vinil). Enquanto esperava, vi Dudu Nobre (informação vinda do Paulo quando perguntei se era o Belo, pois não conheço muito bem os pagodeiros) com seus músicos adentrarem a sala de embarque. Procurei o cara com um violão em uma capa (ou bag) para saber se tinha algo a ser feito. Ele me disse que não viaja mais com instrumentos em estojo (ou case), pois já teve um violão avariado e descobriu que quando está em bag é considerado bagagem de mão. Disse a ele que já era tarde, tinha trazido minha guitarra em um case. Curioso, ele pediu para ver a BR6, se encantou e pegou o telefone do Sr. Romeu. Quando Dudu veio chamá-lo para o embarque, viu a guitarra, perguntou de quem era “essa maravilha” e me deu parabéns.  Quase tive de dar autógrafos…

BR6 original depois da pintura

BR6 original depois da pintura

Conseguimos, enfim embarcar com nossas bagagens de mão (O Paulo trouxe mais vinil que eu), mas já vim pensando no que fazer do corpo e do braço da BR6. Pensei em fazer um banco com o corpo e um puxador para a porta do meu escritório com o braço. Conversando pelo telefone com o Sr. Romeu, senti que o destino da BR6 não lhe agradara. Propus que ele a restaurasse apenas para decoração colocando a pintura, ferragens, tarraxas, potenciômetros e knobs originais o que foi imediatamente aceito por ele.

A guitarra está em fase de montagem, Recebi fotos quando da pintura. No terceiro passeio pelo planeta do vinil devo levar uma bag vazia para repatriar minha BR6.

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VIDEOS COM ROMEU BEGHER

A GUITARRA ESTÁ PRONTA!!!

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17 comentários sobre “Begher BR6: A saga de uma guitarra

  1. Prezado Paulo,
    Estava me lembrando das guitarras que cruzaram meu caminho ao longo da vida, e me lembrei de uma Begher, em 1967, aqui em Vitória (ES), quando um grupo passou por aqui. Fiquei apaixonado, mas sem saber onde encontrar uma, já que o guitarrista disse ter ganhado aquela relíquia.
    Um belo dia vi, numa loja da minha cidade, uma muito parecida, que me levou a entrar pra saber mais.
    Era uma Sonelli, muito semelhante à Begher.
    Como “quem não tem cão, caça com gato”, comprei aquela guitarra e a usei por alguns anos.
    Hoje me deu um estalo e resolvi colocar o nome “BEGHER” no google.
    Cheguei assim até você. Parabéns!

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  2. José Maurício, descobri no porão da casa de meu sogro uma Begher idêntica à sua! Foi uma alegria imaginar que seu Romeu pudesse estar vivo ainda.Será? Existe algum meio de contata-li para restaurar a guitarra? Algum telefone ou endereço de como encontrá-lo.
    Agradeço desde já,
    Um abraço, Eduardo

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  3. Olá. Possuo uma Begher BEm quase idêntica à da foto acima, porém possui 12 cordas.está em ótimo estado porém preciso de um pequeno reparo nos botões de controle . Qual o endereço em São Paulo para tratarmos pessoalmente ??? Carlos José Franco

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