Nunca desista de seu Sonho ou Como uma Música me fez vender meu Carro

José Maurício

 

“Nunca desista de seu sonho.
Se acabou numa padaria, procure em outra”
(Barão de Itararé).

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Em 1979 a Volkswagen promoveu o primeiro face-lift da linha Passat desde 1974, adotando a frente dos modelos Audi 100 fabricados na Alemanha e pela primeira vez o carro era disponível com a cor interna azul como opcional.

Nunca Desista (8)

Foi em um Passat desses que peguei carona do Campus da UFG (hoje Campus Samambaia) em direção ao centro. O “meu” era branco com o interior azul e um rádio Volkswagen (Bosch) com AM e FM, onde ouvi pela primeira vez uma voz rouca, meio falando, meio cantando, mas acima de tudo atrapalhando uma guitarra espetacular, limpa e pura. Quando eu estava encantado e curtindo (não no sentido do Facebook) aquele som, meu “motorista” resolveu abaixar o volume, exclamando: Êita Bob Dylan!  Acho que sem querer, ele acertou. O som incrível que eu ouvia vinha de uma Fender Stratocaster tocada por Mark Knopfler na música Sultans of Swing. Como Mark tinha sido guitarrista de Bob Dylan no álbum “Slow Train Coming”, ele trazia alguma influência de Mr. Zimmerman.

Auto-Rádio Bosch

Auto-Rádio Bosch

Voltando aos Sultões do Swing, eu não acreditava que em plena época de discotèque poderia surgir um rock naquele nível e, enquanto a música não “pegou”, eu acreditava que era o som de uma banda antiga que eu não conhecia. Depois de acostumar com o jeito de cantar do líder do Dire Straits, acho que a guitarra e voz se encaixam perfeitamente. Como não conseguiria a voz, passei a procurar pela guitarra.

Nunca Desista (10)

Mark Knopfler e sua Strato vermelha

Ditadura militar, reserva de mercado, era impossível importar uma guitarra (mesmo porque eu não tinha dinheiro nem para o lanche da faculdade). Economizava o dinheiro das aulas (já tinha iniciado minha carreira no magistério) sonhando com uma Giannini Stratosonic vermelha, que não era assim uma Fender, mas eu também não era (e nunca seria) um Mark Knopfler!

Já na Faculdade de Engenharia (na Praça Universitária), encontrei Argemiro, grande amigo e colega desde os tempos de pré-primário. Ele me ofereceu sua guitarra Giannini vermelha 1972 com amplificador, por um preço razoável e, embora ela fosse Supersonic (modelo da Jaguar) e outro amigo tentasse atrapalhar o negócio, acabei comprando. Acreditava que havia realizado meu sonho já que era uma guitarra vermelha, três captadores single coil

A Giannini Supersonic

A Giannini Supersonic

Mas continuava tão fascinado pela fender strato que fiz uma miniatura (1/3 da original) em madeira e escrevi em sua mão (utilizando uma caneta nanquim Rotring 0,1): Fender STRATOCASTER.

A miniatura manufaturada

A miniatura manufaturada

Em 2004 estava pensando em vender duas das três guitarras que possuía, quando Pedro (meu filho) se interessou realmente pelo instrumento. Assistindo ao show “Hell Freezes Over” do Eagles, especificamente à música Life in the Fast Lane, meu filho decidiu: queria uma Fender Stratocaster branca, como a de Joe Walsh. Pensei: já que não comprara a minha fender, compraria a dele. Aproveitaria o fato de meu irmão Luiz, que morava nos EUA, estar de mudança para o Rio de Janeiro e poderia trazer a guitarra de navio, junto com a mudança.

Visitamos praticamente todos os sites de instrumentos dos Estados Unidos sem conseguir encontrar a dita guitarra. Com o prazo para a compra se esgotando, pedi opinião ao Fernando, grande guitarrista e amigo, pois pensava em trazer uma Epiphone Casino chinesa apenas para aproveitar a vinda de meu irmão. Ele me respondeu com um e-mail cheio de links dizendo que se eu gostava era de Strato, lá estavam suas sugestões.

Fender Stratocaster Mark Knopfler signature

Fender Stratocaster Mark Knopfler signature

Começava por uma Fender mais barata (sem estojo) aumentando gradativamente o preço e a qualidade até chegar a um link precedido da seguinte frase: “pra chutar o pau da barraca!” Quando cliquei no link (o mais caro) encontrei uma Fender Stratocaster vermelha Mark Knopfler Signature (uma réplica do instrumento original, com as mesmas alterações feitas pelo guitarrista do Dire Straits) comemorativa dos 50 anos da marca.

Muito cara e, embora eu já pudesse comprar o lanche da faculdade, estava terminando a construção de minha casa e, novamente, sem dinheiro. Como não faço nada por impulso, esperei uma noite e no outro dia vendi meu carro, mandei um e-mail e depositei o dinheiro na conta do meu irmão. Estava comprada a guitarra. Embora tivesse de passar dois anos sem carro (até poder comprar um Fuscão 75), eu era proprietário de uma fender legítima e mais: uma réplica da que ouvi naquele Passat.

VW Passat

VW Passat

Ainda precisava buscá-la no Rio de Janeiro. Embora a mudança tivesse chegado em julho, só consegui ir ao Rio no natal de 2004 (aquele do tsunami), mas o problema era como trazê-la. Não queria despachá-la, pois o estojo não chegaria inteiro (ele também uma é uma réplica do início dos anos 60 com o interior de chenille amarelo). Optei por arriscar trazê-la como bagagem de mão (pesando 11 Kg) junto com 12 Kg de discos de vinil. Cheguei bem cedo ao aeroporto, fiz o check in e fui direto para a sala de embarque. Quando da chamada preferencial apenas uma grávida se aproximou do portão de embarque. Uma lâmpada incandescente se acendeu sobre minha cabeça indicando que tinha tido uma idéia: aproximei-me com a guitarra em uma das mãos e uma sacola de discos na outra ficando exatamente ao lado da senhora minha salvadora. Sem dizer uma palavra adentrei o corredor ao lado dela sendo o primeiro a chegar à aeronave e podendo usar o bagageiro acima da poltrona para posicionar a guitarra e os discos. Indescritível a sensação que tive quando o avião decolou…

A guitarra se apresentou em público duas vezes: a primeira com o Pedro na missa de formatura dele na oitava série, a segunda comigo em um show do Le Gurvelon (banda composta pelo Eduardo, Pedro Paulo, Marcelo e Pedro) substituindo a guitarra base do Marcelo (toquei Free Bird do Lynyrd Skynyrd e Sultans of Swing).

A original e a réplica

A original e a réplica

Meus agradecimentos ao motorista do Passat que não sei quem é (só sei que fazia engenharia civil), ao Argemiro (grande amigo proprietário de um Chevette vinho 74 naqueles bons tempos), ao Fernando (o melhor guitarrista da banda Riff-Raff – isso não é um elogio, pois o outro era eu), ao Vandir (grande amigo que embora tentasse, não conseguiu atrapalhar minha compra), ao Luiz que até hoje continua trazendo pedais de efeito de lá (ele voltou a morar nos EUA), ao Pedro que hoje se apossou de minha Mark Knopfler (propus que se solasse Sultans of Swing a guitarra seria dele, e em duas semanas fiquei sem ela), e finalmente à desconhecida grávida que tanto me auxiliou (que diabos fazia uma grávida sozinha no Rio de Janeiro?).

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Veja pai e filho tocando SULTANS OF SWING:

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