Disco Nota 11: “Desire” – Bob Dylan

Paulo Fernandes

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VIRADA COUNTRY

Após o álbum “Blonde on Blonde”, de 1966, Bob Dylan voltou seu interesse musical para o country. Um Dylan sóbrio e contido aparece no álbum “John Wesley Harding” (1968), que inaugurou aquela nova fase dylanesca.

O folk e o rock só voltariam a ter presença predominante no excelente “Blood on the Tracks”de 1975. Porém este album eu só conheci bem depois de seu lançamento, assim sendo o que marcou para mim a década de 1970 na música de Bob Dylan é o seu álbum seguinte: “Desire” de 1976.

Contracapa de "Desire"

Contracapa de “Desire”

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VIOLINO CIGANO

Seguindo o seu propósito de fazer sempre um trabalho distinto do anterior e de pensar cada disco como um todo, Dylan escolheu um caminho original e que dá um sabor único a “Desire”, dentre toda sua extensa discografia: a sonoridade cigana do violino amplificado de Scarlet Rivera, que se destaca dentro de uma banda enxuta, coesa e sem guitarra elétrica!!

Scarlet Rivera e Bob Dylan

Scarlet Rivera e Bob Dylan

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FILMES MUSICAIS

Outro ponto que distingue este álbum é fato de Dylan, sempre apegado às suas obras, ter aceitado dividir a maioria das composições do disco com Jacques Levy, diretor teatral conhecido por seu trabalho em “Oh! Calcutta!”. Isto talvez explique a fluidez cinematográfica (ou seria teatral) das canções.

Esse filmes musicais se revelam mais evidentes nos épicos que abrem cada um dos lados do vinil: Hurricane no lado A e Joey no lado B.

Dylan visita o "Hurricane" na prisão

Dylan visita o “Hurricane” na prisão

Em Hurricane, um Dylan raivoso nos conta a história do boxeador Rubin “Hurricane” Carter, boxeador condenado injustamente por assassinato em 1966, quando Rubin era favorito ao título mundial dos pesos médios. Ele só foi inocentado em 1985. A história foi contada também em um filme de 1999: “The Hurricane”, com Denzel Washington no papel principal.

Já na lenta e longa Joey, Dylan desenha um retrato heróico de um notório mafioso de Nova York: Joey Gallo.

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E na coleção de filmes musicais de Dylan para este disco temos joias melancólicas como Isis e Oh, Sister. Brincadeiras alegres com rimas em Mozambique, um faroeste de cores mexicanas em Romance in Durango (que ganhou uma versão em português com nome de Romance no Deserto, cantada por Fagner). Uma canção inspirada por Joseph Conrad: Black Diamond Bay.

Uma de minhas músicas preferidas neste disco é a melódica e pungente One More Cup of Coffee, escrita durante uma estada de Dylan no sul da França, onde presenciou um festival cigano. O vocal de apoio de Emmylou Harris traz, aqui como em outras músicas do disco, um brilho especial.

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E encerrando o álbum, uma das músicas mais confessionais de Dylan: Sara. Apesar de suas esquivas, esta música é um retrato (real ou sonhado) de seu relacionamento com sua esposa Sara Dylan. O casamento dos dois estava em um período turbulento à época e acabou por se transformar em divórcio no ano seguinte.

Depois de “Desire”, Dylan passaria o resto da década lançando fracos discos de estúdio e álbuns ao vivo sem nenhuma emoção. E, em mais uma de suas viradas, se converteria ao cristianismo. Teríamos que esperar até 1983 para ouvir algo realmente à altura de sua importância.

Sara e Bob

Sara e Bob

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FAIXAS

Todas as faixas compostas por Bob Dylan e Jacques Levy, exceto as indicadas.

Lado 1

1) Hurricane
2) Isis
3) Mozambique
4) One More Cup of Coffee (Valley Below) (Dylan)
5) Oh, Sister

Lado 2

1) Joey
2) Romance in Durango
3) Black Diamond Bay
4) Sara (Dylan)

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MÚSICAS

 

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