“Money”: A irônica crítica do Pink Floyd ao capitalismo selvagem

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Até hoje eu me pergunto como uma pessoa, que se diz fã do Pink Floyd, paga um ingresso caro para ir ver o show do Roger Waters, em sua turnê pelo Brasil em 2018, e quando o Waters alerta a esta pessoa que não deve votar em determinado candidato, pois ele representa uma ameaça fascista ao país e ao mundo, o sujeito vaia o músico e se diz surpreso com seu posicionamento político.

Tais atitudes, vaiar e se surpreender, demonstram que essa pessoa ou estava lá pela modinha ou então nunca entendeu nada de Pink Floyd. A banda, e principalmente Waters, sempre se posicionou, nos álbuns e fora deles, contra as desigualdades sociais, contra a força nefasta do capitalismo selvagem e contra a ameaça autoritária e castradora do fascismo. É impossível este posicionamento ser mais explícito do que, entre outras músicas anteriores e posteriores, nas letras do álbum “Animals”, de 1977.

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Um dos shows de Roger Waters no Brasil em 2018. Hoje ele deve falar: “Eu avisei!”

Mas já no maravilhoso “The Dark Side of the Moon” existem evidentes sinais do ideário político e social do grupo. Notadamente nas faixas do Lado B (o lado escuro?) Money e Us and Them.

Para vocês não reclamarem de que ultimamente o Rockontro está a falar muito de política, resolvi escolher outros temas: a ganância e a opulência, lados mais tenebrosos do capitalismo. Para tanto vamos conversar um pouco sobre a faixa Money.

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Roger Waters, Nick Mason, David Gilmour e Rick Wright, circa 1973

 

MONEY

Com seu ritmo irresistível que se aproxima do rhythm & blues, a canção se inicia com os barulhos ritmados de moedas e caixa registradora que logo se fundem com a hipnótica linha de baixo de Waters que se repete durante quase toda sua duração. Na seção intermediária o clima muda para o de rock progressivo pesado, com sensacional solo de guitarra de David Gilmour. Há também a primeira aparição do saxofone em uma música do Pink Floyd, ótima participação do, daí para frente, frequente colaborador Dick Parry.

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Essa atmosfera festiva e dançante pode iludir os mais incautos quando a letra de Waters, aliás, a música é toda creditada a ele, começa a ser cantada por David Gilmour. A primeira vista pode parecer uma ode ao luxo e aos excessos que o dinheiro em abundância pode proporcionar. Só que é justamente o seu ritmo malemolente e divertido que nos dá a chave da ironia, isto e o fato das três estrofes serem abertas cada uma com uma frase de impacto e que parecem contradizer o texto que vem a seguir:

1. Money, get away (Dinheiro, liberte-se)
2. Money, get back (Dinheiro, afaste-se)
3. Money it’s a crime (Dinheiro é um crime)

Na verdade a crítica de Waters aqui é sobre a opulência, que fica clara na sequência da primeira estrofe:

Grab that cash with both hands and make a stash
New car, caviar, four star daydream
Think I’ll buy me a football team

(Agarre essa grana com as duas mãos e a esconda. (compre) Carro novo, caviar, sonhos luxuosos. Acho que vou comprar um time de futebol para mim)

É sobre as enormes desigualdades entre ricos e pobres e a exploração capitalista do trabalho:

I’m all right jack keep your hands off of my stack

(Estou bem, operário tire suas mãos do meu esconderijo (do meu dinheiro))

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Money so they say
Is the root of all evil today
But if you ask for a rise it’s no surprise that they’re
giving none away

(Dinheiro é hoje a raiz de todos os males, dizem eles (os poderosos), mas se você for pedir um aumento, não será surpresa se eles (os poderosos) não lhe derem nenhum)

É sobre a ganância:

Share it fairly but don’t take a slice of my pie

(Compartilhe-o (o dinheiro) de forma justa, mas não pegue uma fatia do meu bolo)

Com a palavra o próprio Roger Waters: “em certa altura da vida devemos escolher de qual lado estamos, do poder material do dinheiro, que tudo compra e obtém ou do lado mais simplista, que preza por uma vida alheia às demandas consumistas da alta classe”.

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Um trecho da letra de “Money” aparece no filme “The Wall”, quando o tirânico professor arranca das mãos do jovem Pink, seu livro de poemas.

Resumindo, Money não é um rock exaltação ao poder do dinheiro, mas uma crítica irônica ao mau uso da grana que promove exploração, desigualdade e miséria.

VÍDEOS


Clipe oficial:


Faixa do álbum com as letras:


 

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