A Danação e o Blues de Robert Johnson

Fábio Finotti

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Dando continuidade aos artigos “Raízes do Rock”, escrevo agora sobre um músico que a vida e o mito se misturam como uma névoa de tal forma espessa que mesmo com muita pesquisa não podemos claramente distinguir o que é real, e o que foi adicionado com o passar dos anos.

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Robert Johnson não tocava rock, mesmo porque o gênero ainda não havia nascido, ele era um dos milhares dos chamados bluesmen do Delta do Mississippi. Viveu pouco, cerca de 27 anos, com uma vida recheada de estórias sobrenaturais e algumas gravações feitas pouco antes de suas morte, que tanto influenciaram artistas do blues e do rock, tais como Eric Clapton, Keith Richards, Robert Plant e tantos outros.

 

VIDA E OBRA

Robert Leroy Johnson nasceu em Hazlehurst, cidade do estado do Mississipi, no dia 8 de Maio de 1911, data contestada pela incerteza, visto que em cada documento encontrado existe uma data diferente.  Atuou como músico itinerante no período de 1932 até a sua morte em 1938, o que causou sérios problemas aos seus biógrafos em reunir dados confiáveis. Sempre em viagens entre grandes centros e pequenas cidades situadas no Delta do Mississipi e imediações, ocasionalmente viajou para Chicago, Texas, Nova Iorque, Canadá, Kentucky e Indiana, muitas vezes utilizando nomes diferentes em cada lugar que parava.

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Quando Johnson chegava a uma nova cidade, ele tocava por trocados em esquinas ou em frente a barbearias e restaurantes, sempre em performances agradáveis em que eram tocados os sucessos do momento, não necessariamente blues. Johnson tinha uma enorme empatia com seu público, sempre mantendo laços de amizade com as comunidades locais.

Por volta de 1936, Johnson procurou um caçador de talentos que o colocou em contato com um executivo da Brunswich Records. A primeira sessão de gravação foi marcada para o dia 23 de Novembro de 1936, no quarto 414 do Hotel Gunter de San Antonio, que a gravadora havia modificado como estúdio temporário naquela época, onde nos três dias que se seguiram Johnson tocou dezesseis seleções, com gravações alternativas da maioria destas.

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Em 1937, Johnson viajou para Dallas, Texas, para outra sessão de gravação, onde mais onze gravações foram feitas com lançamento programado para o próximo ano.  Como também foram feitas duas gravações da maioria das músicas durante esta sessão, podemos comparar diferentes estilos utilizados por Johnson para uma mesma canção.

PACTO COM O CAPIROTO

A lenda de que Robert Johnson vendeu sua alma ao Capiroto vem sendo contada e recontada desde a sua morte. Ela diz que Johnson, um jovem vivendo em uma fazenda no Mississipi, sentiu um enorme desejo de tornar um grande músico de Blues, sendo então orientado a ir com seu violão a uma encruzilhada perto de uma fazenda, à meia-noite.

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Tela de Nicola Verlato

Na encruzilhada ele encontrou um homem grande e negro (o Cafuçu?), que tomou a sua guitarra e a afinou. O “Tinhoso” tocou algumas músicas e devolveu a guitarra a Johnson, que se tornou mestre no instrumento em troca de sua alma.

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A encruzilhada (crossroads)

Aparentemente o próprio Johnson gostava de espalhar estes boatos (ou será verdade?), estimulando a população a comparecer às suas apresentações para conferir suas “habilidades” no violão. Alguns autores relacionam o diabo da estória de Johnson não à entidade Judaico-Cristã, mas ao trapaceiro deus africano Legba, um velho conhecido dos pactos e das encruzilhadas.

MORTE PREMATURA

A lenda diz que em uma noite Johnson começou a flertar com uma mulher no baile e que esta seria a mulher do proprietário do estabelecimento, e ele aceitou dessa mulher uma garrafa de uísque batizada pelo marido ciumento com estricnina. Seu colega Sonny Boy Williamson ainda o aconselhou a nunca beber uma garrafa oferecida que já estivesse aberta. Sem sucesso.

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Nem preciso dizer que ele entornou a garrafa naquela noite e na manhã seguinte já estava se sentindo mal, morrendo três dias depois, no dia 16 de agosto de 1938, com supostos 27 anos (Clube dos 27?).  Alguns autores contestam esta estória, dizendo que era preciso uma grande quantidade de estricnina, que possui gosto amargo e difícil de mascarar para matar uma pessoa em horas, não em dias como a estória revela. Entretanto, a lenda é mais interessante que a realidade e, enfim o Chifrudo veio reclamar o pagamento da dívida.

O NASCIMENTO DO MITO

Robert Johnson foi de pouca influência aos músicos de sua época, possuindo apenas um sucesso (este mesmo sendo pequeno) em seu tempo de vida, chamado Terraplane Blues, talvez consequência de ser um músico itinerante.

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Monumento em Clarksdale, Mississipi

Entretanto, Johnson teve enorme influência aos músicos que o sucederam, especialmente no rock and roll, sendo que o Rock and Roll Hall of Fame incluiu quatro de suas músicas em uma lista de 500 músicas que influenciaram e moldaram o gênero, sendo elas Sweet Home Chicago, Cross Road Blues, Hellhound on My Trail e Love in Vain.

Cena do filme "Crossroads" inspirado no mito Robert Johnson

Cena do filme “Crossroads” inspirado no mito Robert Johnson

Os músicos ingleses foram especialmente influenciados, sendo sentido em músicos como Robert Plant (Led Zeppelin) que regravou Traveling Riverside Blues; Eric Clapton, que gravou um disco só com músicas do Robert Johnson chamado “Me and Mr. Johnson”; Brian Jones e Keith Richards dos Rolling Stones, bem como na banda Fleetwood Mac, quando ainda era um grupo de blues rock.

CURIOSIDADES

Hoje é consenso entre os musicólogos que as gravações do Robert Johnson estão pelo menos 20% mais rápidas do que o músico geralmente as interpretava.  Isto ocorre por que a gravadora Okeh/Vocalion geralmente utilizava este artifício em seus álbuns para torná-los mais “excitantes” aos seus consumidores.

 Alguns dos vídeos postados no link abaixo estão na velocidade aproximada que o músico as gravou, e as restantes na velocidade apresentada nos discos comercializados pela gravadora, ficando evidente que a voz presente nos álbuns está distorcida pela velocidade.

Outra curiosidade interessante foi quando Brian Jones apresentou a Keith Richards a música de Robert Johnson, Richards perguntou “Quem é o outro tocando com ele?”, ficando espantado com a revelação que Johnson tocava sozinho.

 

MÚSICAS

Clique na imagem abaixo para assistir aos vídeos:

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