Disco Nota 11: “Meat Is Murder” – The Smiths

Paulo Fernandes

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ROCK NA PARAÍBA

Toda vez que escuto Smiths eu me lembro de João Pessoa. Estranho? Nem tanto! Ambas – a música da banda e a cidade – possuem uma beleza imensa revestida por uma simplicidade cativante. Essa história começou no início de 1985. Eu estava de férias na capital paraibana, uma noite numa lanchonete na orla da praia de Tambaú, quando caiu em minhas mãos um caderno 2 (as melhores seções de qualquer jornal) de um certo jornal com uma matéria de capa sobre The Smiths, a nova banda sensação na Inglaterra.

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Era a época da New Wave e de suas várias implicações: que incluíam mil teclados, roupas de grife, músicos maquiados com penteados malucos e nomes de bandas pomposos e até pedantes. E no jornal vejo a formação básica do rock com voz, guitarra, baixo e bateria, quatro rapazes em roupas comuns e um nome, justamente fazendo um contraponto de simplicidade à pompa reinante: The Smiths, algo como lembrou o tal jornal, como “Os Silvas” se fossem brasileiros. A matéria elogiava o grupo por seu rock básico, e bem tocado, e à importância dada à guitarra como suporte às letras que falavam de temas cotidianos coletivos ou individuais.

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THE SMITHS

É claro que fiquei curioso para escutar o som dos Smiths, mas como a internet não estava ainda na ordem do dia, foi preciso esperar a volta para casa e achar – o até então único LP lançado no Brasil – o excelente “Hatful of Hollow”, na verdade uma compilação de singles e gravações em programas da BBC, lançado no final de 1984, mesmo ano do primeiro disco chamado “The Smiths”. A banda havia iniciado sua carreira em 1982 na cidade inglesa de Manchester (um dos berços mais importantes do rock alternativo da década de 1980).

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A descoberta foi tudo o que eu esperava, e que a matéria do jornal anunciava, com mais um pouco: a voz melancólica de Morrisey cantando problemas existenciais do indivíduo ou bradando contra as injustiças sociais em letras poéticas; a guitarra de Johnny Marr, altamente melódica, mas sem firulas; e a base rítmica – que tanto inspirou a Legião Urbana em seus primeiros álbuns – propiciada com eficiência pelo baixo de Andy Rourke e a bateria de Mike Joyce. Aliás, Renato Russo tinha muitos pontos em comum com Morrissey.

No livro “Guia de Rock em CD – Uma Discoteca Básica” de Arthur Dapieve e Luiz H. Romanholli há uma definição bem interessante sobre o som dos Smiths: “… escutaram Beatles até queimar todo açúcar e Rolling Stones até destilar toda a black music. Era rock’n’roll de branco”.

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CARNE É ASSASSINATO

Em 1985 foi lançado o terceiro, segundo de estúdio, álbum: “Meat Is Murder”. Neste disco foram acrescentados sutilmente novos elementos ao som da banda: um pouco de hard e rockabilly. Morrissey escancara ainda mais os seus pensamentos e convicções em letras que falam de pacifismo e condenam o autoritarismo: The Headmaster Ritual e Barbarism Begins at Home,  defendem o vegetarianismo na faixa-título Meat Is Murder (carne é assassinato). Além de seus caros temas existenciais, e uma aparente inadequação a este mundo, discorridos em baladas melancólicas e belas, com destaque para That Joke Isn’t Funny Anymore.

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Frases marcantes (mais itens para a coleção do Alan) da música, a de som mais pesado do disco, Nowhere Fast:

I’d like to drop my trousers to the world
I am a man of means, of slender means

(Gostaria de tirar minhas calças para o Mundo / Sou um homem de intenções, de frágeis intenções).
I’d like to drop my trousers to the queen
Every sensible child will know what this means

(Gostaria de tirar minhas calças para a rainha / Toda criança sensível saberá o que isso significa).

And when I’m lying in my bed
I think about life

And I think about death

And neither one particularly appeals to me

(E quando estou deitado em minha cama / Eu penso na vida / E eu penso na morte / E nenhuma das duas em particular me apetece).

Penso que “every sensible child” já passou por tais situações.

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Capa da edição em CD.

A capa segue a linha das antecessoras, fotos de filmes dos anos 60 em tons monocromáticos: neste caso do documentário sobre a guerra do Vietnã “In The Year of the Pig” de Emile de Antonio. A inscrição original no capacete do soldado era “Make War Not Love” inversão do lema hippie: “Faça Amor Não Faça Guerra”.

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FAIXAS

Todas as faixas compostas por Morrissey e Johnny Marr.

Lado A

1.    The Headmaster Ritual
2.    Rusholme Ruffians
3.    I Want the One I Can’t Have
4.    What She Said
5.    That Joke Isn’t Funny Anymore

Lado B

1.    How Soon Is Now? *
2.    Nowhere Fast
3.    Well I Wonder
4.    Barbarism Begins at Home
5.    Meat Is Murder

* A edição norte-americana do disco traz uma faixa-bônus, a excelente How Soon Is Now? Com uma letra bastante tocante e reveladora, mas que deixo a procura a cargo de vocês.

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MÚSICAS

Ouça o álbum completo:

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