“Macunaíma” – Modernismo e Tropicalismo no Cinema Novo

Paulo Fernandes

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Macunaíma (Paulo José) e seu filho (Grande Otelo)

 

“Macunaíma”, o livro de Mário de Andrade, foi publicado em 1929 e é um dos monumentos literários mais bem acabados do modernismo brasileiro. Passados 40 anos da publicação do livro, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade conseguiu a façanha, o romance era considerado infilmável, de levar às telas o “herói sem nenhum caráter”.

O nascimento de Macunaíma (grande Otelo)

O nascimento de Macunaíma (grande Otelo)

A adaptação de Joaquim Pedro conseguiu o mérito de preservar a essência do livro de Mário e ao mesmo tempo atualizar seu discurso de uma maneira bem cara aos modernistas da década de 1920: antropofagicamente, “devorando” a contracultura sessentista, o movimento hippie, o tropicalismo, o candomblé, entre outras contribuições culturais.

Macunaíma com o Caipora (Rafael de Carvalho)

Macunaíma com o Caipora (Rafael de Carvalho)

Numa época em que a maioria dos filmes nacionais eram realizados em preto e branco, o filme é em cores berrantes e bem ao gosto dos tropicalistas. O personagem Macunaíma é interpretado magistralmente primeiro por Grande Otelo e depois por Paulo José.

Macunaíma (grande Otelo/Paulo José) fumando um cigarrinho

Macunaíma (grande Otelo/Paulo José) fumando um cigarrinho

Macunaíma nasceu negro (Grande Otelo) na floresta amazônica, numa família que sintetiza a formação étnica do povo brasileiro: o índio americano, o branco europeu e o negro africano, e desde cedo deu mostras do seu caráter (ou falta dele): malandro, inteligente e preguiçoso, só mostrava disposição para “brincar” (fazer sexo). A caminho da cidade do Rio de Janeiro (no livro era São Paulo), junto a seus irmãos Jiguê (Milton Gonçalves) e Maanape (Rodolfo Arena), Macunaíma se transforma em branco (Paulo José) ao passar por uma fonte mágica.

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Macunaíma (paulo José) fala sobre as pragas do Brasil, ao lado dos irmãos Jiguê (Milton Gonçalves) e Manaape (Rodolfo Arena)

É esse segundo Macunaíma, o urbano, que aproxima ainda mais o modernismo e o tropicalismo ao incorporar (devorar) vários traços culturais brasileiros e estrangeiros, podemos ver isso nas várias caracterizações visuais do personagem que nos remete sucessivamente e não necessariamente nesta ordem a: um cantor de protesto estadunidense, um músico tropicalista, um roqueiro psicodélico, um hippie doidão, um ídolo da Jovem Guarda, etc.

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“Ai que preguiça!!” Macunaíma descansa enquanto Ci sai para guerrear

Uma atualização que particularmente eu acho sensacional é a caracterização da personagem Ci (Dina Sfat), o grande amor de Macunaíma. No livro ela é uma guerreira da floresta (uma mítica amazona) e no filme uma guerreira/guerrilheira urbana. Nada mais atual e acertado num tempo em que os movimentos sociais pipocavam pelo mundo e no Brasil começavam os movimentos de guerrilha urbana contra a ditadura militar.

A guerreira Ci (Dina Sfat) imobiliza o heroi

A guerreira Ci (Dina Sfat) imobiliza o heroi

“Macunaíma” o filme foi um dos maiores sucessos de público do Cinema Novo brasileiro e fez, e ainda faz, o público rir muito, por vezes de si mesmo, das aventuras e desventuras do heroi. Na longa lista de atividades antropofágicas do filme, um gênero de filme que havia sido sucesso no passado foi “devorado” sem nenhum constrangimento pelo Cinema Novo: a chanchada dos anos 1950. Advirto entretanto que o filme não se presta a uma única leitura e cada vez que eu o assisto noto uma referência que não havia percebido antes.

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A feijoada antropofágica na casa do gigante Venceslau Pietro Pietra (Jardel Filho)

Na trilha sonora, numa atitude tipicamente tropicalista (ou seria modernista), convivem músicas de cantores da era do rádio, Silvio Caldas e Dalva de Oliveira, com o pop nacional da época, Roberto Carlos, Jorge Ben e Wilson Simonal, e até o vanguardista Jards Macalé.

Na volta de Macunaíma à floresta ele pede a construção de uma ponte para facilitar a vida dos goianos

Na volta de Macunaíma à floresta ele pede a construção de uma ponte para facilitar a vida dos goianos

VÍDEOS  

 

 

Trailer do filme:

É Papo Firme com Roberto Carlos:

Toda Colorida com Jorge Ben:

Mangangá com Wilson Simonal:

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2 comentários sobre ““Macunaíma” – Modernismo e Tropicalismo no Cinema Novo

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