Eagles e o seu “Hotel California”

José Maurício

eagles_-_1976_hotel_california

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SOLOS DE GUITARRA ME CONQUISTAM

Este foi um dos primeiros LPs que comprei, já em 1977, para ouvir em uma recém adquirida vitrola Philips, cuja tampa (única, infelizmente) era a caixa de som. A escolha desse disco dentre tantos desejados e tão escassos recursos disponíveis, deu-se pelo solo final da música título. Como a música durava mais de 6 minutos (6:30, na verdade), as emissoras de rádio “cortavam” o solo através de um fade out (abaixando lentamente o volume) para que ela acabasse mais rápido. Raramente eu ouvia aquele solo de duas guitarras que tanto me chamava a atenção até o final. Então decidi comprar o “Hotel California”.

Vitrola Philips (Mono)

Vitrola Philips (Mono)

Bom, fato é que, com não mais que quatro LPs e alguns compactos para ouvir, experimentei uma overdose de Eagles em seu quinto álbum (ou sexto se consideramos a coletânea “Their Greatest Hits”).

“Hotel California”, ainda que não totalmente, é um disco temático. Retrata o hedonismo (doutrina filosófica que proclama o prazer como fim supremo da vida) californiano após o fim da era hippie, baseado na vida que cada membro do grupo levava.

A faixa título abre o lado A com uma introdução no braço superior (o de 12 cordas) da gibson de Don Felder com capotraste no sétimo traste desfilando uma sequência fantástica de acordes que se seguiria por toda música (exceto no refrão). A letra  é um enigma interpretado através de várias teorias (consumo de cocaína, culto a Satã, desilusão com a indústria do disco e até crise da meia idade). Talvez esse excesso de interpretações seja o segredo do sucesso da música. O Hotel California já foi identificado como um templo satanista, mansão de um seguidor do “coisa ruim” e até um sanatório.

Don Felder

Don Felder

Na realidade a foto da capa refere-se ao Beverly Hills Hotel na Califórnia (9641 Sunset Blvd, Beverly Hills, CA, 90210), um “hotelzinho” de quatro pavimentos e 208 quartos.  O solo final (razão da compra do disco) é um caso a parte. Pode-se cantarolar toda a melodia do solo mesmo sem haver letra. A entrada de Joe Walsh no lugar de Bernie Leadon (ex The Flying Burrito Brothers) deu uma pegada hard nas guitarras do Eagles (inclusive na de Don Felder). O duelo final dessas guitarras é antológico e faz parte dos dez melhores solos de rock de todos os tempos em qualquer lista.

O hotel da foto da capa

New Kid in Town, uma balada country ao estilo “Eagles” vem em seguida com belos arranjos vocais e uma das guitarras escondidas no canal direito (veja curiosidades).

Life in the Fast Lane possui um magnífico riff do recém chegado à banda, Joe Walsh (ex James Gang) contando a história de um casal vivendo perigosamente nas noites californianas. A “conversa” entre as guitarras merece uma segunda audição com atenção plena dedicada aos guitarristas.

Walsh deixa a guitarra por um orgão, acompanhando Glenn Frey ao piano para que Don Henley lamente o tempo perdido com um relacionamento (crise de meia idade?) em Wasted Time.

Eagles em 1977

Eagles em 1977

Wasted Time (reprise), um arranjo de cordas de Jim Ed, abre o lado B como uma introdução ao solo inicial de Victim of Love. Com seus um minuto e vinte e dois segundos, talvez essa seja a faixa que eu mais tenha gravado em fitas K7, pois quando não cabia uma música inteira eu voltava a fita e gravava Wasted Time

Tida por muitos a menos importante do disco, Victim of Love é uma de minhas preferidas. A causa provável do meu gosto são as guitarras: Walsh (slide guitar) e Felder (lead guitar) estão impecáveis. O solo da introdução, feito por Don Felder, também merece destaque. O tema continua o mesmo, questionamento sobre tipos de relacionamentos amorosos.

Pretty Maids All in a Row, se integra ao tema da crise de meia idade pela pergunta “and why must we grow up so fast?” (e por que temos que crescer tão depressa?), mas tanto quanto Try and Love Again, continuam questionando os amores através do tempo.

Last Resort traz de volta o Eagles de “Desperado” (segundo disco, 1973) narrando a marcha para o oeste e a destruição de comunidades indígenas em nome de Deus “they even brought a neon sign ‘Jesus is coming’…“ (trouxeram um letreiro de neon ‘Jesus está vindo’). Uma bela canção.

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CURIOSIDADES

No final de 1994, a MTV tentou promover um programa Unplugged (acústico) marcando a volta do Eagles. Além de muito dinheiro, cada integrante da banda fez suas exigências mirabolantes (até orquestra com 105 músicos), mas Joe Walsh exagerou: quero tocar guitarra, disse ele. Como resultado temos a primeira parte acústica e o final elétrico. Sem poder usar o título Umplugged MTV, o show e o disco foram chamados “Hell Freezes Over” como uma referência à citação de Don Henley quando da separação da banda de que só se reuniriam novamente “quando o inferno congelasse”.

Eagles em 1994

Eagles em 1994

Alguns anos depois, quando minha avó comprou outra vitrola Philips com duas tampas (agora stereo) “descobri” a outra guitarra de New Kid in Town “escondida” no canal direito após cada verso em:

There’s talk on the street, it’s there to remind you
That it doesn’t really matter which side you’re on
You’re walking away and they’re talking behind you
They will never forget you till somebody new comes along

Vitrola Philips (Estéreo)

Vitrola Philips (Estéreo)

No início da internet (discada, é claro) mandei um e-mail para a radio Antena 1 solicitando que não tocasse mais a música Year of the Cat (de Al Stewart) se tivesse que acabá-la no meio do solo. Eles passaram a tocar toda a música!

Segundo o guitarrista Luiz Carlini (autor do solo de Ovelha Negra), um solo é bom se você se lembra da melodia: “Certa vez, num hotel em Belém do Pará, uma moça, índia, entrou para limpar o quarto assobiando o solo. Fiquei me perguntando como tinha conseguido atingir aquela pessoa, tão distante e de cultura tão diferente. Estava descobrindo o poder da música”.

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MÚSICAS 

Ouça o álbum completo (Lista de Reprodução):

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2 comentários sobre “Eagles e o seu “Hotel California”

  1. Meu presente da semana e meu email deste domingo (2015/235). HOTEL CALIFÓRNIA reina soberano no grupo de meus cinco rock’n’roll preferidos, em todos os tempos.

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