Adolphe Joseph Sax* e a Engenharia Elétrica


Não gosto de saxofone. Também não sou um homem digital, meu cérebro ainda pensa analogicamente. Quero dizer que no meu pensamento não existe só zero ou um, sim ou não, preto ou branco (como disse Vanusa, o meu mundo é colorido), aceso ou apagado (meu interruptor é um dimmer). Enquanto o homem pensava que estava ensinando o computador a pensar, ele aprendia com seu aluno, se tornava binário, daí a polarização dos dias atuais.

* Adolphe Sax, inventor e músico belga que criou o saxofone.

Eu não estudaria saxofone, não tocaria saxofone, não passaria a noite ouvindo saxofone, mas na trilha sonora principal dos meus tempos de engenharia sempre teve um solo fantástico de saxofone. Fantástico e imprescindível.

Seguiremos a ordem cronológica:

Em 1976 o britânico Alastair Ian Stewart, nascido em Glasgow, lançava o impecável álbum Year of the Cat que traz o seu maior sucesso na canção de mesmo nome. Acontece que os discos demoravam para chegar ao Brasil, sendo lançado aqui em 1977 pela RCA. Lembro-me de ouvi-la pela primeira vez em 1978 dentro de um Passat amarelo num toca fitas TKR 150 (cara preta). Seu solo começa com um violão, crescendo por intermédio de uma guitarra e atingindo seu auge no saxofone. Saxofonista: Phil Kenzie.

Al Stewart e o saxofonista Phil Kenzie.

O atraso também aconteceu com The Stranger do nova-iorquino Billy Joel. Seu disco de 1977 só chegou aqui em 1978. Ele continha o sucesso “Just the Way You Are” que seria gravado pelo arranjador e cantor Barry White também com sucesso. Nesse caso o sax começa permeando os vocais, fazendo um riff logo após a frase “i love you just the way you are” para em seguida alçar seu voo o solo. Saxofonista: Phil Woods.  

Já o City to City de Gerry Rafferty teve o lançamento no Brasil no mesmo ano do resto do mundo (1978). Na espetacular “Baker Street” o teclado, a bateria e a percussão preparam para um solo inicial onde o sax já chega com potência máxima e permanece como riff principal. Destaque também para a guitarra de Hugh Burns com um solo feito em apenas um take. Saxofonista: Raphael Ravenscroft.

Em 1979 chegava o Breakfast in America auge da banda Supertramp com a sua canção lógica, “The Logical Song”, praticamente um dueto entre Roger Hodgson e John Helliwell, voz e saxofone conversando durante trechos da música, conversa evidenciada na gravação ao vivo em Paris.

John Helliwell, multi-instrumentista do Supertramp.

O ano de 1980 passou em branco, apenas uma referência de sax na instrumental “The Gold Bug” do álbum The Turn of a Friendly Card do Alan Parsons Project, sendo que o hit do disco era “Time”. Saxofonista: Mel Collins (membro do King Crimson).

Estamos em 1981 e o choro sofrido de Philip David Charles Collins, após sua separação é interpretado pelo saxofone na introdução de “If Leaving me Is Easy” do maravilhoso Face Value: puro sentimento! Saxofonista: Don Myrick.

Phil Collins e o saxofonista Don Myrick

Em meu último ano de UFG, The Alan Parsons Project lançou seu álbum de maior sucesso comercial, Eye in the Sky. Como já era final do curso de engenharia, o solo do sax ficou para o final da música, no final do disco: “Old and Wise”. Saxofonista: Mel Collins.

Era 1983, eu colara grau em janeiro, mas ainda havia tempo para o último grito do saxofone, e que grito!!! Em março o Pink Floyd lançava uma espécie de continuação do disco The Wall, 1979, chamado The Final Cut que continha “The Gunner’s Dream” onde o ponto de partida para o solo do saxofone é o grito de Roger Waters: “hold on to the dream”, onde o clamor progride para o som do instrumento. Saxofonista: Raphael Ravenscroft.

O saxofonista Raphael Ravenscroft que gravou seu saxofone em “Baker Street” de Gery Rafferty e “The Gunner’s Dream” do Pink Floyd.

Portanto, os cinco anos em que cursei e colei grau na UFG, de 1978 a 1983, foram permeados por solos de saxofone, bons tempos! Meus agradecimentos à professora Quimico Iamamoto Pacheco que, na disciplina Processamento de Dados, me ensinou sistemas binário e hexa decimal. Também sou grato aos amigos que encontrei no dia a dia do curso entre meus dezessete e os vinte e dois anos de idade, pessoas que ajudaram a moldar meu caráter. Como disse Cora Coralinauma amizade antiga é uma das coisas que nos ajuda a lembrar quem somos no mundo“. Outro grande poeta completou: “separar, jamais!

E os solos de saxofone continuaram em 1984, com “Careless Whisper”Wham, em 1985, “Your Latest Trick”Dire Straits













3 comentários sobre “Adolphe Joseph Sax* e a Engenharia Elétrica

  1. Ficou muito legal!!!

    Há um álbum dessa época, o qual eu gosto muito, que tem o saxofone presente em três de suas 11 faixas. E não é qualquer sax, é o mestre do jazz Sony Rollins que ajudou a tornar “Tattoo You” dos Rolling Stones ainda mais memorável!!!

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  2. E, então, diante de um relato histórico cronológico de tamanha qualidade musical, pergunto: Como suportar o que chamam de música nos dias atuais? Não sou nenhum expert no assunto, mas meus ouvidos se acostumaram com as bandas e composições citadas. Vivi e desfrutei dos mesmos clássicos aqui lembrados. Me chamem de saudosista ou velho, mas, por favor, curvem-se à minha geração de músicos e clássicos musicais e, é claro, não economizem nos aplausos.

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