Disco Nota 11: “Mutantes” – Mutantes

Paulo Fernandes

Publicado originalmente em 04/10/2010

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O NASCIMENTO DO ROCK NO BRASIL

O rock feito no Brasil começou no final dos anos 1950 e era basicamente composto de versões de sucessos norte-americanos. Em 1959 Celly Campello estourou em todo país com a música Estúpido Cupido. Ela e seu irmão Tony se tornaram atração em vários programas do rádio e da televisão, sucesso que se estendeu até o início da década de 1960.

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A JOVEM GUARDA

O início da década de 1960 assiste a formação de vários grupos de rock no Brasil, com suas versões de sucessos estrangeiros e músicas instrumentais.

Em 1963 surge aquele que seria o maior ídolo do rock nacional da década, e posteriormente de toda a música brasileira, Roberto Carlos. O “Rei”, como viria a ser chamado, gravou uma sucessão de sucessos, que incentivaram a TV Record a lançar um programa semanal chamado Jovem Guarda, comandado por Roberto, por seu parceiro Erasmo Carlos e pela cantora Wanderléa.

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O programa, em seus primeiros anos, atingiu altos índices de audiência e ajudou a promover uma série de novos artistas ligados ao movimento, que além da música envolvia moda e comportamento.

Musicalmente a Jovem Guarda mesclava influências do pioneiro rock norte-americano, representado por Elvis Presley, e da música beat inglesa, que tinha nos Beatles pré álbum “Rubber Soul” seu maior representante.

Roberto, Wanderléa e Erasmo

Roberto, Wanderléa e Erasmo

Apesar de seus milhares de seguidores entre a juventude brasileira, a Jovem Guarda sofreu um acirrado antagonismo de alguns artistas da chamada MPB séria, liderados por Elis Regina e Jair Rodrigues. Essa bobagem chegou ao cúmulo em 1967 com a “Passeata contra as guitarras elétricas”.

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OS MUTANTES E O TROPICALISMO

É impossível falar de Tropicalismo sem falar dos Mutantes. A banda formada pelos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias e pela amiga de ambos Rita Lee começou sua trajetória em 1966, antenada com a vanguarda psicodélica da Califórnia e da swinging London dos Beatles pós “Rubber Soul”.

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As idéias inovadoras dos Mutantes de misturar rock psicodélico com elementos musicais tipicamente brasileiros os aproximaram dos também vanguardistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé gerando uma revolução musical e cultural sem precedentes na história do Brasil.

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O ponto seminal dessa revolução aconteceu em 1967, durante o III Festival de Música Popular Brasileira organizado pela TV Record. Nessa ocasião Caetano Veloso apresentou Alegria, Alegria, acompanhado pelo grupo de rock argentino Beat Boys, e Gilberto Gil mostrou Domingo no Parque, acompanhado pelos Mutantes.

Recomendo o documentário “Uma Noite em 67” que mostra esse famoso festival.

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Caetano Veloso canta Alegria, Alegria no Festival de 1967

O ano de 1967 foi também um dos mais importantes para o rock mundial culminando com o disco “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band” dos Beatles que influenciou várias vertentes musicais daquele ponto em diante, inclusive o Tropicalismo.

Em pé: Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa Sentados: Sérgio Dias e Arnaldo Baptista

Em pé: Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa
Sentados: Sérgio Dias e Arnaldo Baptista

Um dos frutos mais instigantes do Tropicalismo aparece em 1968 com o disco-manifesto, e na minha opinião o melhor disco de música brasileira de todos os tempos, “Tropicália ou Panis et Circenses”. Um disco coletivo que reunia Caetano, Gil, Mutantes, Tom Zé, Gal Costa, Torquato Neto e Capinam. Contava ainda com arranjos orquestrais do maestro Rogério Duprat, figura impar que também ajudou a moldar o som dos Mutantes em seus primeiros discos.

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MUTATIS MUTANDIS

Chamado simplesmente “Mutantes” foi lançado em 1969, um ano depois do aclamado disco de estréia “Os Mutantes”. Apesar da crítica especializada considerar o primeiro disco o seu melhor, na minha opinião é neste segundo que o grupo encontra o melhor equilíbrio em suas experimentações, além do trabalho mostrar uma qualidade que muito prezo: uma unidade em seu desenvolvimento em contrapartida à colcha de retalhos, nem sempre brilhantes, de seu predecessor. O resultado é um painel multicolorido e irreverente que processa influências diversas com o amado rock psicodélico da banda.

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Começando pela épica Dom Quixote com texturas sinfônicas, passando por vários ritmos e temas, com destaque para a toada-caipira-futurista 2001, a linda balada beatlemaníaca Fuga nº2, uma versão mais pesada de Banho de Lua música que havia sido sucesso com Celly Campello anos antes, a lisérgica Qualquer Bobagem regravada mais recentemente pelo Pato Fu e terminando com outro épico com elementos sinfônicos providos por Rogério Duprat, a magistral Caminhante Noturno.

As figuras mutantes de 6 dedos na contracapa do álbum

As figuras mutantes de 6 dedos na contracapa do álbum

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FAIXAS

Lado A

1. Dom Quixote” (Arnaldo Baptista/Rita Lee)
2. Não Vá Se Perder Por Aí” (Raphael Vilardi/Roberto Loyola)
3. Dia 36″ (Johnny Dandurand/Mutantes)
4. 2001″ (Rita Lee/Tom Zé)
5. Algo Mais” (Os Mutantes)
6. Fuga nº2″ (Os Mutantes)

Lado B  

7. Banho de Lua” (B. Filippi/F. Migiacci/Fred Jorge)
8. Rita Lee” (Mutantes)
9. Mágica” (Mutantes)
10. Qualquer Bobagem” (Tom Zé/Mutantes)
11. Caminhante Noturno” (Arnaldo Baptista/Rita Lee)

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MÚSICAS 

Clique na imagem para ouvir:

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Um comentário sobre “Disco Nota 11: “Mutantes” – Mutantes

  1. Adorei, muito legal! Não tinha visto a contracapa, achei sensacional! Rs Gostei como o post ficou bem informativo e ainda assim conciso. Dom Quixote foi uma música que pensei em deixar na minha lista, ainda mais pela referência literária, vi tantas interpretações dela, que acabei deixando pra lá, mas pelo som e pela minha própria visão foi uma das minhas favoritas. Abraços!

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