A “Sinfonia Fantástica” de Berlioz ou Sexo, Drogas e Rock Progressivo

Paulo Fernandes

Berlioz_01

Um jovem músico, cheio de ideias artísticas revolucionárias, apaixona-se por uma atriz. Sua paixão não é correspondida pela mulher. Ele então busca conforto e refugio nas drogas, passa por viagens alucinadas e alucinógenas. Tudo acompanhado por uma música forte e vibrante. Pode até parecer a história de algum roqueiro dos anos 60 ou o enredo de uma ópera-rock de Pete Towshend, mas é o programa da “Sinfonia Fantástica” do compositor francês Hector Berlioz, composta 120 anos antes do surgimento do rock n’ roll.

.

MÚSICA PROGRAMÁTICA

Eu usei a palavra programa, pois esse tipo de música – que teve seu auge durante o período romântico no século XIX – passou à história como música programática, ou seja é aquela que evoca ideias ou imagens a partir dos sons e segue um programa (enredo) concebido pelo compositor. Geralmente tal termo é aplicado à música instrumental e não se aplica à ópera.

Berlioz_07

Caricatura de Berlioz regendo sua obra “bombástica”

Qualquer semelhança com os álbuns conceituais de rock que surgiram no final da década de 60 – e que tiveram um campo fértil principalmente no rock progressivo – não é mera coincidência.

Embora a música programática já aparecesse em períodos anteriores ao romantismo – basta lembrar o ciclo de concertos “As Quatro Estações” de Vivaldi ou a “Sinfonia Pastoral” de Beethoven – foi no século XIX que ela floresceu e virou um gênero, graças à sinfonia de Berlioz e aos poemas sinfônicos de Liszt e, já na virada para o século XX, às obras de Richard Strauss.

.

BERLIOZ E SEU AUTO-RETRATO QUANDO JOVEM

Hector Berlioz tinha apenas 27 (!!) anos quando estreou sua obra mais emblemática: “Episódio da Vida de um Artista, Sinfonia Fantástica em Cinco Partes”. Ele concebeu a sinfonia como uma narrativa de sua paixão pela atriz irlandesa Harriet Smithson e também influenciado por sua leitura de “Fausto” de Goethe.

Harriet Smithson, a amada

Harriet Smithson, a amada

As cinco partes da sinfonia são as seguintes:

1) Devaneios e Paixões: O artista experimenta sentimentos contrastantes de melancolia e êxtase em relação à sua amada. A música reflete tais contrastes;

2) Um Baile: O encontro do artista com sua amada durante uma grande festa. Uma valsa brilhante emoldura a cena;

3) Cena Campestre: O artista se refugia no campo, mas não consegue esquecer sua amada e tem pressentimentos sombrios com relação ao futuro desse amor. Melodia tranquila e pastoral;

4) Marcha ao Cadafalso: Com a cabeça cheia de ópio, o artista imagina que matou sua amada e foi condenado à morte. Momento rock pauleira da obra com fanfarras explosivas;

5) Sonho de uma Noite de Sabá: Ainda sob o efeito do ópio, o artista agora se vê em meio a um sabá de feiticeiras. Este movimento é de fazer inveja ao Black Sabbath e mistura um tema de dança grotesco com uma melodia lúgubre e pesada baseada na marcha fúnebre católica “Dies Irae”.

Berlioz_08

Outra sacada genial de Berlioz é representar a mulher amada como uma melodia, e esse tema musical – chamado ideia fixa – aparece em todos os movimentos da sinfonia.

A “Sinfonia Fantástica” é uma obra revolucionária e pioneira que – ouso dizer – influenciou muita gente da música clássica e, direta ou indiretamente, o rock da segunda metade da década de 60 em diante. Encerro com uma frase de Berlioz que resume seu pensamento musical:

“O amor não pode expressar a ideia de música, no entanto a música pode expressar uma ideia de amor.”

.

MÚSICAS

 

Ouça a sinfonia completa:

Bônus: Marcha Húngara de “A Danação de Fausto” (peça heavy metal de Berlioz)

Anúncios

Um comentário sobre “A “Sinfonia Fantástica” de Berlioz ou Sexo, Drogas e Rock Progressivo

  1. Deliciei-me ao sorver de palavras que, embora pareçam simples, carregam em si a frescura da primavera, não obstante tratar-se de um gênio de alma controversa e espírito atormentado.
    Ora, imaginamos que O Amor seria designação dos mais doces arroubos…
    Mas não se consegue fugir à medíocre rima: amor/dor.
    Ainda bem que o texto de Paulo Fernandes trouxe toda a dramática passionalidade de Berlioz de forma mais amena.
    Grau 10: para Berlioz, ao Paulo!
    Obrigada!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s